“Não existe nem judeu nem grego, nem existe mais escravo nem livre, não existe mais homem nem mulher: porque todos vós sois um só em Cristo Jesus” (Gálatas 3, 28).

  O racismo é um dos principais problemas sociais enfrentados nos séculos XX e XXI, causando, diretamente, exclusão, desigualdade social e violência. Racismo é a denominação da discriminação e do preconceito contra indivíduos ou grupos por causa de sua etnia, ou cor. É importante ressaltar que o preconceito é uma forma de juízo formulado sem qualquer conhecimento prévio do assunto tratado, enquanto que a discriminação é o ato de separar, excluir ou diferenciar pessoas ou objetos.

Podem ser indicados, a esse respeito, dois tipos de racismo: a discriminação racial e o racismo estrutural. A discriminação é uma forma direta de racismo que acontece quando um indivíduo ou grupo se manifesta de forma violenta, física ou verbalmente, contra outros indivíduos ou grupos por conta da etnia, raça ou cor, bem como nega acesso a serviços básicos e a locais pelos mesmos motivos. Pense-se, por exemplo, quando décadas atrás, nos Estados Unidos havia até banheiros separados para brancos e negros.

De maneira menos direta, o racismo estrutural é a manifestação de preconceito por parte de instituições públicas ou privadas, do Estado e das leis que, de forma indireta, promovem a exclusão ou o preconceito racial. Partindo do fato que mais da metade dos brasileiros é afrodescendente, negros ou pardos, deveríamos encontrar mais da metade de deputados, senadores, ministros, universitários, empresários que fossem afrodescendentes. Mas isso não acontece porque historicamente houve uma exclusão dos afrodescendentes e dos indígenas na sociedade brasileira. Não podemos esquecer que o Brasil foi o último grande país ocidental a extinguir a escravidão.

O preconceito racial não é exclusivo do Brasil, visto que, em maior ou menor escala, todos os países colonizadores e colonizados apresentam, em algum grau, índices de preconceito racial contra negros ou, no caso de países colonizados, contra nativos daquele local. No século XIX, surgiram até teorias científicas para tentar hierarquizar as raças e provar asuperioridade da raça branca pura. Mas no dia a dia, a título de exemplo, os adjetivos “negro” ou “preto”, ou “índio” são utilizados frequentemente como indicativos de algo “inferior”.

Perguntamos: nós, como cristãos, devemos nos posicionar sempre contra o racismo? Sim, pois em todas as culturas, por causa da realidade do pecado, sempre se manifesta a exclusão dos outros. Eis que o apóstolo Paulo já colocava um importante princípio para todos os cristãos de todos os tempos: “Não existe nem judeu nem grego, nem existe mais escravo nem livre, não existe mais homem nem mulher: porque todos vós sois um só em Cristo Jesus” (Gálatas 3, 28). Estas palavras da fé cristã, quando são vivenciadas, vão tornar-se ‘luz do mundo’ para que a sociedade possa viver em paz e harmonia.

E, mais especificamente, quanto ao racismo, gostaria de apresentar um texto de Dom Zanoni Demettino Castro, arcebispo de Feira de Santana (Bahia). Ele é afrodescendente e a sua reflexão sobre o racismo se encontra no site da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), com o interessante título: ‘Coisa de Negro’. Eis, a seguir, as suas palavras:

“Sob o manto de Nossa Senhora Aparecida os Bispos da América Latina e do Caribe, em sua V Conferência (no ano de 2007), constataram que a história dos afrodescendentes ‘tem sido atravessada por uma exclusão social, econômica, política e, sobretudo, racial, onde a identidade étnica é fator de subordinação social’ (DAP – Documento de Aparecida, 96). Embora vivamos num novo tempo, numa nova época em que não se admitem etnocentrismos, xenofobismos e preconceitos, os afrodescendentes ‘são discriminados na inserção do trabalho, na qualidade e conteúdo da formação escolar, nas relações cotidianas’. As consequências dos 300 anos de escravidão ainda não foram suficientemente reparadas... Esta realidade deve ser enfrentada. Como cristãos acreditamos que os valores do Reino de Deus são imprescindíveis no processo de gestação de um novo modelo cultural, quando os afrodescendentes irão assumir ‘uma atitude mais protagonista’ conscientes do poder que têm nas mãos e da possibilidade de contribuírem na construção desse novo modelo cultural, a nova sociedade, justa e solidária (DAP 75), sinal do reino definitivo, anunciado e realizado por Jesus Cristo”. 

A imagem negra de Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil, nos lembra que todos nós, de todas as raças e cores somos um só em Cristo Jesus.

Lino Rampazzo

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